A viuva de Pacheco revela a Fradique, em Sintra, a ʃua completa
ʃurpreʃa pela admiração atracção q eʃte tem pelo imenʃo talento do ʃeu defunto marido.
Ela nunca ʃe chegou a aperceber da exiʃtência deʃte talento! Peʃʃoa critica
a introdução deʃta ʃurpreʃa na narrativa de Fradique como ʃendo uma falta quebra de
decorum eʃtilíʃtico, um de unidade no ductus irónico.
ʃubʃtituir Sintra a viuva de Pacheco repreʃenta uma deʃlocação para Para
defender Fradique temos q encontrar a teoria q Peʃʃoa não q juʃtifique
o ʃeu lapʃo, nomeadamente a teoria ʃegundo a qual não pode haver experiência ʃem
uma linguagem para a em q ela poʃʃa ʃer vivida.
O LAPSO DE FRADiQUE
Dois enʃaios das "Páginas de Doutrina Eʃtética" de Fernando Peʃʃoa ocupam diʃtinguem-
ʃe particularmente pela profundidade da análiʃe. São os enʃaios ʃobre o
provincianiʃmo português e o enʃaio junto q o acompanha, ʃobre o caʃo mental português. Têm
ambos uma pequena tradição, na literatura de reflexão em língua portugueʃa _ re=
firo-me ao enʃaio de Antero de Quental ʃobre as cauʃas da Decadência dos Povos
Peninʃulares, para o lado ʃério da inveʃtigação, e à proʃa diʃperʃa de Eça de
Queiroz, para o lado irónico, eʃpecialmente para a correʃpondência de Fradique
Mendes.
Enquanto q o provincianiʃmo como conceito não é uma invenção de Peʃʃoa,
o conceito de um caʃo mental, de uma patologia da menteal do português é
excluʃivamente o ʃeu mérito, a menor parte do qual não é ter forjado o termo
com q por meio do qual nos podemos enfrentar penʃar eʃte conjunto de problemas. São dois enʃaios,
mas ʃó há na verdade uma teʃe, q une liga ambos os enʃaios entre si & lhes dá uma direcção
única: o português ʃofre de uma inʃuficiência debilidade da conʃciência., no ʃentido
em q eʃta naʃó eʃtá rudimentarinʃuficientemente conʃtituída. Não é ua aʃtenia de uma
função proviʃòriamente debilitada, é antes a fraqueza inerente a uma função ou um
orgão incompletamente formado.
Peʃʃoa deʃcobre diagnoʃtica eʃta patologia da alma nacional na ʃua ao deʃcobrir um o ʃeu ʃin=
toma ¦literário¦ a fim de concomitante, nomeadamente a incapacidade do português para ao ironia exercicio da
ironia. O autor português é capaz de eʃcrever ʃe mover à vontade no âmbito da Sá=
tira, onde a repreʃentação interpretação do real é traduzida formulada na nas conʃtruçãoes do groteʃco, não
é no entanto capaz de chegar aos refinamento Raffinement da ironia, em virtude de
eʃta exigir uma percepção de ʃi próprio q o autor português não é capaz de fazer ter.
O paradigma dea ironia é para Peʃʃoa Jonathan Swift, um o autor q é capaz de tem a imperinabalável ¦tem a imperturbável¦
ʃuʃtentadamente coerência de apreʃentar a ʃua uma teʃe apenas indirectamente, através apenas de
uma ¦irrecusável obʃtinada¦ reductio ad absurdum. Já Eça de Queiroz ou Fradique Mendes ao ten=
tar preciʃamente a proʃa de ironia, na ʃua compoʃição da figura doe Pacheco
Pacheco, foi incapaz de ʃuʃtentar o ponto de viʃta irónico e, no
fim do ʃeu trabalho, tem um relapʃo para o ponto de viʃta ʃatírico, ao explicitar
a menʃagem de toda a compoʃição por meio do epiʃódio da viúva de Pacheco em
Sintra. Fradique não tem a diʃtância em relação a ʃi próprio, a capacidade
de ʃer ao meʃmo tempo ʃujeito & objecto da ʃua própria percepção, para ʃe
aperceber da ʃua inconʃciente tranʃição da iIronia para a Sátira. É provinciano irreflectido,
tem ¦ʃofre afinal¦ da dos portugueʃes, aquela eʃpontaneidade do provinciano q é incapacidadez super-urbana aldeã de ʃe
auto-analiʃar, ʃem nunca chegar a perder ao controle ʃobre as o ʃentido das partes destacadas .analiʃadas.
É admirável o poder diagnóʃtico de Peʃʃoa. Os portugueʃes ʃofrem de Aʃʃim como a uma função
uma deformação por inʃuficiência inʃuficientemente exercida correʃponde um orgão só parcialmente formado - e 'ergo'
deformado - aʃʃim também a deformação da conʃciência nacional conʃiʃte
na ʃua reduzida actividade. O homem português tem aʃʃim menos ʃenʃações
menos percepções, menos emoções, menos eʃtados cognitivos, menos vontade
do q poderia ter em princípio ter. E ʃe como eʃta deformidade atrofia da alma
portugueʃa é uma realidade irrecuʃável, então temos q todo o noʃʃo eʃforço tem q ʃer
agora exercidao para a deʃcoberta de uma teoria q a explique e q ofereça a
poʃʃibilidade de a curar da ʃua cura.
↗ Peʃʃoa tem fazez o diagnóʃtico certo, identificaou com clareza uma clareza
quaʃe diáfana o objecto & o nome da doença nacional - mas não ʃe
lhe pode exigir q conʃegue extrair em nenhum passo dos seus ensaios de agora a doutrina adequada subja=
cente & a ¦à produção de uma¦ terapia2 adequada. eficiente1.
Para nos orientarmos na procura deʃta doutrina temos q nos
deixar guiar pelo princípio de q não poʃʃo ter uma experiência daquilo ʃeguinte: tudo aquilo q não pode ʃer claramente
expreʃʃo também não pode ʃer claramente vivido. Só depois de eu eʃtar de poʃʃe
de um vocabulário mínimo acerca de um aʃpecto da minha experiência, me é
então poʃʃível vive-la clara & reflectidamente. Neʃtas circunʃtâncias,
é-ʃe imediatamente levado a concluir q os portugueʃes ¦homem português¦ não ter não podem haver uma experiência clara & daos ʃeus
¦eʃtados¦ vida conʃciente de conʃciência, em virtude de não exiʃtir em Português um vocabulário
adequado suficientemente diverʃificado para a exprimir.
Eʃte vocabulário ʃó pode poderá ʃer conʃtituído na noʃʃa língua quando
as diʃciplinas da Conʃciência eʃtiverem traduzidas para Português & aos
ʃueus expreʃʃões conceitos eʃpecíficos tiverem uma a expreʃʃão portugueʃa juʃta. Neʃtas cir=
cunʃtâncias os pʃicanaliʃtas portugueʃes vêm-ʃe conʃtantemente perante oa ʃeguinte dilema: dificuldade
para de compreenderem o q um alguns conceitos típico báʃico da pʃicanáliʃe, como por exemplo com aqueles cujo
uʃo correcto ʃe reflecte imediatamente no comportamento da analiʃando, como
é por exemplo o conceito de 'freier Einfall'. e depois de o julgarem Este A eʃte conceito a maioria só tiveram aceʃʃo
pela ʃua verʃão franceʃa ou ingleʃa, e é neʃʃa baʃe verʃão q o vão tranʃmitirem ao
analiʃando, muitas vezes nem uʃando ʃequer uma tradução portugueʃa. Ainda
mais típico gritante do q 'freier Einfall' é a ʃituação criada pelo conceito ʃob o uʃo do termo
nome de 'Einʃicht', q inglês 'insight': q o analiʃando é supoʃto
aceder gradualmente a eʃta capacidade, a ter cada vez mais 'inʃight',
mas também aqui não é feito o eʃforço para encontrar uma expreʃʃão
portugueʃa q o analiʃta & o analiʃando partilhem: mas ora eu nunca
poʃʃo chegar a ter 'inʃight' ʃe a única coisa q ʃei acerca deʃta capacidade é
ao q me é tranʃmitida pelo termo de uma língua q onde não eʃtá repreʃentada em q a minha
vida interior .não é conduzida.
Exiʃte evidentemente um vocabulário francês dea Pʃicanáliʃe. Mas
para nós iʃto repreʃenta já uma diʃtância de ʃegundo grau, uma tradução de
uma tradução.
↗ Foi Ppor me ter já há algum tempo apercebido deʃte problema, não como analiʃta
mas como profeʃʃor eʃtudante ¦eʃtudioʃo¦ de Filoʃofia da Conʃciência, q me decidi a traduzir para português
a obra q inaugura eʃta diʃciplina nos tempos modernos &, ʃobretudo, onde em q é ʃiʃtemà=
ticamente conʃtituído o actual vocabulário da diʃciplina. Tem É imenʃoamente intereʃʃe inʃ=
trutivo mencionar o facto de o meu ededitor ter dispor um revisor q sub-tradutor, o qual tem a função de fazer propoʃtas ʃobre a tradução
propoʃta. E invariàvelmente todos os termos q eu pretendi introduzir em português, como
criação na noʃʃa língua do conceito uʃado por Wittgenʃtein, foiram ʃujeitas a uma con=
tra-propoʃta do reviʃor ʃub-tradutor, a qual conʃiʃtia também invariàvelmente numa faʃtidioʃa circumlocução
da minha ideia de Wittgenʃtein. e o
Falta acima de tudo o impacto ʃobre o público do vocabulário português uʃado
na Pʃicologia da Conʃciência & na Pʃicologia da Cognição.
À criação do vocabulário da vida interior depara-ʃe em Português como
vimos in limine com a dificuldade ʃeguinte: o meʃmo termo, 'conʃciência', tem
q ʃer uʃado para deʃignar duas realidades completamente diʃtintas: um
conjunto dos de eʃtados de conʃciência, por um lado, e a uma inʃtância moral
por outro. Eʃtas duas realidades eʃtão bem NaAs linguas alemã e por exemplo ingleʃa contemdiʃpõem doise um t. termos, ¦para cada uma das realidades,¦ para de modo
cada mod q neʃtas línguas não me é nunca poʃʃível confundir o eʃtudo da Conʃciência ponto de viʃta
com o eʃtudo da pʃicológico com o ponto de viʃta ético, a percepção da
¦minha¦ vida interior com o conjunto de normas q regula o meu comportamento.
É Eeʃta inʃuficiência báʃica ¦congénita¦ de vocabulário q eʃtá na origem da atrofia da
vida mental dos portugueeêʃes., ¦Nnão éʃendo aʃʃim de ʃurpreender q o ʃeu tom deʃta ʃeja um lamento & o ʃeu conteudo um cepticiʃmo reʃignado.¦ A ʃua vida mental não ʃe pode deʃenvolver ʃem
p A vida mental e a vida moral ʃão vagamente percepcionadas referidas numa meʃma
n indiʃtinta e nebuloʃa deʃignação, de modo q não há a ʃua percepção não
pode ʃer nem carteʃianamente clara nem diʃtinta.
↗ Além diʃʃo, eʃta para a percepção clara e diʃtinta de um objecto da vida interior,
também não há em português um termo para a referir.: O termo subʃtantivo inglês "Awa=
reness" e,e o verbo "to be aware of", a expreʃʃão complexa "to lack the act of awareness
of" têm ʃão preferidos pelo não eʃtavam ao diʃpor de Fradique, que de modo q o ʃeu inconʃciente re=
lapʃo da ironia para a Sátira é uma falta de 'awareness',. mas Eu proponho por iʃʃo q
ʃe paʃʃe a falar de uʃar o ʃubʃtantivo 'conʃciencialização' e, o verbo 'conʃciencializar' e a expreʃʃão complexa doe 'acto de conʃcien=
cialização' ., para deʃcrever, no mundo interior, o acto de percepção.
¦Em ʃuma,¦ Evidentemente q o q Finalmente Peʃʃoa quer dizer q Fradique é deʃtituído doe 'insight',
não tem ʃuficiente 'inʃight' ʃobre ʃi próprio e eo movimento dos ʃeus eʃtados de
conʃciência, para Fradique não ʃe aperceber a tempo quando é q Fradique paʃʃa de um ponto de viʃta para
outro. O termo inglês é cognato do termo alemão 'Einʃicht' e ambos deʃignam
não ʃó uma força capacidade, ou faculdade da conʃciência, como também o reʃultado
do uʃo deʃʃa faculdade. Aʃʃim uma peʃʃoa Fradique tem ou é deʃtituída de 'insight', e
uma peʃʃoa e Fradique não chegou a alcançar o 'inʃight' de q não tinha deixado o dominio da
ironia e tinha atraveʃʃado a fronteira para o dominio da ʃátira. À faculdade ou à capacidade
proponho q ʃe chame 'viʃão cognitiva' e é aʃʃim poʃʃível tambem em português
dizer-ʃe q Fa Fradique faltaou a viʃão cognitiva neceʃʃária para ʃe aperceber da ʃua
viagem interior. [ Não encontro na noʃʃa língua uma deʃignação adequada para o
reʃultado do uʃo da viʃão cognitiva expreʃʃo ʃob a forma de um ʃubʃtantivo ]. Os ter=
mos A Peʃʃoa faltou teve a viʃão cognitiva neceʃʃária para ʃe aperceber de q para além
do fluxo contínuo & torrencial da vida interior, é neceʃʃário chegar a ter a percepção
clara do ʃua carácter diʃcreto. da conʃciência,. da poʃʃibilidade de aʃʃistir a Se aA conʃciência é como a luz
branca do diʃco de Newton; os eʃtados de conʃciência ʃão as cores do arco-íris eq
¦ela¦ q ʃe decompõe.