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De Florença
a 17 de agosto de 609
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Injusta cousa hè, que se passe a vida em perpetuo silencio, e
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| [3] | que nem Vm queira saber de mi, nem eu o obrige a me dar no-
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| [4] | vas de si; se me constasse, que minhas cartas não lhe serião moles-
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| [5] | tas, prosegeria esta suave comunicação, em falta da pessoal. Dobrasse
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| [6] | a penna, quando alẽm da auzençia, são negadas ao homẽ, novas de quẽm
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| [7] | ama, e se Vm conspira com os mays, direi de todo, extraneus factus sum
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| [8] | fratribus meis, eis nos em estado, que não sabemos de Vms, e se alguhũa
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| [9] | nova temos d alguhũa parte, hè imperfeita, e incerta, e inquietanos muito
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| [10] | in diluvio aguaram multarum, como por qua soa. folgara poder mandar
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| [11] | hũa viva reprenção, e que com efficacia soubera representar a pouca rezão
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| [12] | que Vm tem de estar tão afeiçoado a essa terra, pois sendo certo que, cadent
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| [13] | a latere tuo mille, et decem millia a dextris tuis, grande favor do ceo hè
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| [14] | neçessario pera segurar, ad te autem non appropinquabit , quanto mays, que
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| [15] | mostra ser pouco sensetivo, quẽm tem animo pera ver semelhantes espectaculos.
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| [16] | de nossos coraçöns, posso testificar, que a auzencia inda que longa não de-
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| [17] | menuie, antes acreçenta o amor, do qual o primeiro effeito hè dezejar sumamte
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| [18] | ver a Vms, não pera remedio de nossas pennosas saudades, porque isso
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| [19] | seria interesse proprio, mas pera que Vms gozem da quietação d alma, e
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| [20] | dos mays bẽns, que nosso Snor dá a quem ama, fora dessa estancia; E não
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| [21] | só dezeiamos, mas tambem, pedimos ao Autor de todos os bẽns, que conçeda
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| [22] | a Vms essa felicidade. Do Snor Doutor se soou, ser vindo a Madrid, con desse-
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| [23] | nho de vir a Anvers, ou a Florença, esta nova, inda que incerta nos alegrou
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| [24] | muito, principalmente por nos parecer que não seria elle só, porem nesta
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| [25] | incerteza estamos solícitos, e Vms atè a comunicação de seus desenhos nos ne-
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| [26] | gão, esperamos emenda. A consorte se encomenda em Vms mui saudosamente,
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| [27] | o mesmo fazem os meninos, Raphael tive doente, de hũa gravissima enfer-
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| [28] | medade, da qual foi nosso Snor servido escaparmo por sua misericordia, seja
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| [29] | pera seu serviço, mas ficoulhe hũ scirro no ventre, o qual o não deixa re-
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| [30] | cuperar perfeita saude hà muitos meses, e inda nos inquieta. Nosso Snor
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| [31] | guarde e prospere a Vm, em companhia da Snora Donna Izabel.
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| [32] | Querendo Vm fazerme m de me escrever, seja com cuberta a Ruy
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| [33] | Lopez e Diego Roiz.
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