INF Então as senhoras são daonde?
INQ1 De Lisboa.
INQ2 De Lisboa.
INF Ah, de Lisboa! Ah!
INQ1 Mas fazemos este trabalho em todo o país.
INF Olhe…
INQ1 E agora calhou aqui assim neste sítio.
INF Sim. Eu Eu sou uma pessoa que sou analfabeta. E já publiquei dois livrinhos.
INQ1 Pois, já sei. Já nos… E também já nos disseram.
INF Tenho este Tenho este prazer. E há uma coisa que tenho um grande desgosto e gostava de não morrer sem re- ir realizar este sonho: era ir à televisão dizer poesia.
INQ1 Ah, pois! Isso era muito…
INF Mas é assim.
INQ1 Nunca…
INF E eu como não sei ler, não…
INQ1 Não, mas isso não tem nada. Isso…
INF Não tenho [vocalização] comunicações nenhumas com pessoa nenhuma, estou sozinha.
INQ1 Pois.
INQ2 Pois.
INF Assim não… E então não sei se se…
INQ1 Pois.
INF Eu mandei um livrinho lá para o senhor Marco Paulo, mas não sei se ele o recebeu, se não. Não sei.
INQ1 Ah, pois.
INF Gostava de ir ao programa dele.
INQ2 Pois.
INQ1 Pois.
INF Que ele também é um rapaz do campo e isso.
INQ1 Claro.
INF Mas não tenho direcção, não tenho nada.
INQ1 Mas escreveu para a televisão, para?…
INF Não, não. Não escrevi.
INQ1 Então?
INF Mandei por mãos [pausa] porque não sabia a…
INQ1 Porque havia… Mas havia alguém conhecido dele ou não?
INF Havia um senhor que fornece o armazém do meu filho,
INQ1 Rhum-rhum.
INF e [vocalização] que tem uma irmã que vive lá perto dele.
INQ1 Ah!
INF Mas não me soube dar a direcção nem nada.
INQ1 Pois.
INQ2 Rhã-rhã. Pois é.
INF Pois é assim.
INQ1 Pois, mas mandando para a televisão para o programa dele…
INQ2 Mande para a televisão.
INF Sim.
INQ2 Pois.
INQ1 Directamente para a televisão e para o programa dele, eu acho que era capaz de conseguir lá ir.
INQ2 Pois. Pois.
INF Pois.
INQ1 E isso eu acho que era muito interessante!
INQ2 Pois.
INF Pois, eu gostava de ir. Gostava, pois, eu…
INQ1 Olhe, e como é que escreve o?… Como é que então?… Quem é que escreve os seus livros?
INF Quer dizer, eu vou faço a poesia. E depois há uma menina, que eu vou…
INQ1 E, e mete na cabeça?
INF Sim. Vou ditando e a menina vai escrevendo.
INQ1 Ah!
INF E vou ajuntando. E [vocalização] quando assim que já tinha que desse [vocalização], e eu mandava para o rádio. Para o rádio: o rádio [nomepróprio], o rádio Lagoa. E depois houve um poeta do Algoz,
INQ1 Sim, sim.
INF que é o Manel Américo dos Santos, [pausa] ouviu a [vocalização] minha poesia e depois eu f- eu fui lá fazer entrevistas – duas entrevistas lá ao rádio – e [vocalização] e depois o senhor disse que eu que era bonito fazer um livrinho,
INQ1 Pois.
INF para deixar para memória, porque era uma pessoa analfabeta, e era uma pessoa da terra, nascida da terra,
INQ1 Claro.
INF e que, enfim, e que era bonito. E então eu, nessa altura, pus assim ideias de fazer o livro. Mas pensei: "Não posso [pausa] porque não tenho ajudas, nem tenho posses para isso"! E depois houve… O senhor disse-me: "Olhe, vá, peça ajudas às juntas de freguesia, [pausa] que eles ajudam! Que eles ajudam"!
INQ1 Pois, e à câmara.
INF Mas ajudaram poucachinho. E eu ali naquela altura, pensei assim: "Eu, calhando, dou feito". Mas fui pedir mas não aceitavam. Diziam que me davam… Aquilo a edição era aí uns, uns tre- uns trezentos contos. E então eu não podia. E depois eu [pausa] fiquei com pena – davam-me pouco – fiquei com pena de não publicar o livro.
INQ1 Rhum-rhum.
INF E então nessa altura, esse poeta ouvia a minha poesia e gostava e e ofereceu-se a passar à máquina para ir para o editor.
INQ1 Pois, pois, pois.
INF E então arranjava a poesia aqui no Algarve, em Algoz e – ali em Lagoa –, e eu ele depois mandava para Lisboa. Em Lisboa é que era arranjado.
INQ1 Ah!
INF Pois. E então foi assim. E eu,
INQ1 Sim senhora.
INF naquela altura que eu…
INQ1 Mas depois vendeu os seus livros?
INF Sim. Olhe, desses tenho só para aí dezasseis [pausa] livros. Mil livros que eu fiz! Tenho dezasseis.
INQ1 Ah, está a ver!
INF O mais vendi tudo. E agora fiz outros mil.
INQ1 Pois.
INF [vocalização] Foi a publicação agora dia 18, [pausa] minha senhora. Mas eu naquela fase que eu [pausa] pensava que havia de fazer o livro… Tinha ideias. Pus ideias que ja-
INQ1 Claro.
INF que dava, assim como o senhor dizia, que dava feito; e depois vi. Aquilo voltou-se, o dinheiro era pouco, não
INQ1 Pois.
INF não conseguia, estava triste, sentia-me triste.
INQ1 Claro.
INF Mas depois o meu marido disse assim: "Olha, tu [pausa] já que tens tanta pena, e eu já agora, também tenho pena já de não fazeres… Olha, a gente põe um… Eu pranto um tanto da minha algibeira, que é a mesma que a tua, mas já faz falta
INQ1 Pois.
INF cá para o nosso governo da vida, pronto, e [vocalização] dá-se de entrada"… E o senhor depois deu-me três meses para a gente vender o livro para pagar o livrinho. Foi.
INQ1 Ah, pois.
INQ2 Ah, pronto!
INF Mas nessa altura que eu estava assim triste, que não dava feito o livro, que eu supus que não dava, tinha posto ideias que o fazia, e depois já tinha posto ideias que não fazia, senti-me triste.
INQ1 Claro.
INF Eu fiz assim… [pausa] Vocês é que não têm vagar também, não é?
INQ1 Não, não. A gente ouve.
INF Eu fiz assim: "Todas as árvores do campo eu gostava de pintar para prantar o meu livro quando eu o publicar. Porque as árvores, coitadinhas, choram a sua solidão, e eu também ando a chorar a dor do meu coração. Que a poesia anda esquecida, não há dinheiro nesta nação, e é por isso que ando a chorar a dor do meu coração. Foi poesia que eu ditei, escrita por outra mão, e é por isso que ando a chorar a dor do meu coração. Peço a Deus que me dê sorte para ver o livro na mão que é para nunca mais chorar as penas do coração"
.
INQ1 Ai tão bonito! É lindo!
INF E eu fiz assim. Gostei muito.
INQ1 É muito bonito!
INF Pois.
INQ2 Pois.
INF E é assim.
INQ1 Sim senhor.
INF E então olha, agora fiz este livrinho, tenho ido vendendo, mas também [vocalização] não…
INQ1 Pois. E a senhora vende aqui? Tem aqui para vender?
INF Tenho, tenho.
INQ1 Ah, depois gostava de levar um.
INF Pois. Pois, então eu [pausa] vendo.
INQ1 Está bem. Sim senhor.
INF Eu s- vendo assim um aqui, outro além, outro aqui, outro além, e eu mandei vender .
INQ1 Claro. Olhe e nunca pôs nas câmaras para venderem? Eles não compraram uma quantidade deles ou assim, não?
INF Não, não compraram. Agora…
INQ1 Porque às vezes as câmaras compram.
INF Pois, às vezes compram, mas não.
INQ1 Quer dizer, às vezes as câmaras também não têm falta de dinheiro, mas…
INF Pois. Eles disseram que talvez me dessem uma ajudazinha, que eu tenho, para pagar o livro, tenho este tempo até ao fim do mês. Se eu pagar até ao fim do mês, fazem-me um descontozinho no livro e [vocalização] e não entra o IVA.
INQ1 Pois, pois, pois.
INF Pois. E então eu [pausa] estou a ver se dou cabo…
INQ1 Claro.
INQ2 Se consegue. Pois.
INF Mesmo se eu não conseguir o meu filho ajuda-me.
INQ1 Pois.
INF Tenho um filho lá em Almada, em coiso, em na Quinta do Conde e tenho outro aqui comigo.
INQ1 Pois.
INF Eles ajudam-me.