INF Eu andava lá a fazer a minha casa, [pausa] aparecem umas meninas assim como como vocês – [vocalização] isto é um modo de falar. É preciso a gente compreender. Elas não são como vocês, vocês não são como elas. Deus lhe vos guarde a vocês de serem como elas. Elas são ali do pé de… Elas, eu até tinha ali a direcção delas. São ali do pé do Hospital de Santa Maria, dizem elas. Não sei se são, se não. Elas dizem que são – bem sei eu! [pausa] Eu andava a fazer a minha casa, aparecem ali aquelas duas raparigas. [pausa] Uma era assim uma saia muito grande, parecia uma cigana! Tal e qual uma cigana, tal e qual, tal e qual, tal e qual, tal e qual! De preto! Vinha toda carregada de preto. Mas eu, carregada de preto, já não estranho porque porque hoje a multidão a novidão usam muito o luto, não é? Quando a gente morre, eles não põem luto, mas depois usam o luto por luxo.
INQ1 Pois.
INQ2 Pois. É.
INF E eu estava ali, andava ali a fazer umas coisas. Tinha acabado O pedreiro tinha acabado de abalar e eu fiquei ali, [pausa] à espera dum filho meu que andava na fábrica do tabaco para vir [pausa] almoçar. [vocalização] E e-, e- E elas tinham dito: "Compre lá [vocalização] algum livro. Compre lá aqui um livro. Compre lá um"…
INQ1 É …
INF "Compre lá à gente um livro". Depois eu disse: "Ó mulher! Eu não tenho dinheiro para livros! Eu não tenho dinheiro para livros! Eu não sou mulher de livros. Não tenho dinheiro para livros". "Ande, compre lá para dar a alguém"… Mas eu até me defendi muito bem. [pausa] "Eu não sei ler" – como não sei.
INQ1 Pois.
INF "Não sei ler e não tenho"… "Então vossemecê não tem filhos? Não tem filhos"? "Não tenho filhos nenhuns. O meu filho… Eu tinha um, já está casado". Mentira, tenho três! "Tenho só um e já está casado" e mais aquilo. Porque Tinha dito que tinha só um porque porque tinha tinha lá a gaiata ao pé de mim, que era minha neta, tinha de ter um filho, não era? Ou uma filha.
INQ1 Pois.
INF A menina era minha neta, elas já me tinham procurado, eu já tinha dito que era minha neta – não era? –, não podia estar a dizer que não tinha filho nenhum…
INQ1 Que não tinha filhos.
INF Então era minha neta tinha que te-…
INQ1 Tinha uma neta como?
INF Pois. Exactamente. "Tenho só um filho e tal. Ele está casado". "Então onde é que ele vive? Então onde é que ele vive? Onde é que ele vive"? Oh! Nisto, eu acabo de dizer isto, dá dá o meu filho a volta [pausa] aqui à rua grande que vai para a minha azinhaga. Diz [vocalização] Diz ela assim: "Oh, o tio"! [pausa] A menina, a pequenina. "O tio. O tio. O tio. O tio". Eu disse: "É o tio, é. Vem almoçar". "Olhe, vê, olhe"… Ó mulheres, assim que o elas viram [pausa] o rapaz parar a bici- a mota… Ele parou a mota assim encostada assim à parede. [pausa] Ele traz traz – ainda ho- ainda hoje traz, já casou mas ainda os traz – dois fios assim de prata grossos, muito grossalhões ao pescoço. Um é delgadinho, o outro é assim muito grosso. Elas Ele vinha assim todo desabotoado . Estava calor, andava lá no na fábrica… [pausa] Elas agarram-se ali assim a ele, ali assim a ele assim: "Eh, ó amigo! Ó amigo! Ó amigo! Ó amigo"! Eu Aos beijos a ele, aos beijos a ele. "Compre lá um livro! Compre lá um livro! Compre lá um livro! Vá, compre agora [vocalização] "! E aos beijos a ele, e aos beijos a ele, aos beijos a ele, e eu vou e disse assim… Eu só disse isto, duas vezes: "Ó menino"! Que a gente só o trata é por menino. É por ser o mais novo, calhando, ou sei lá.
INQ1 Pois.
INF "Ó menino, deixa-te lá de conversas. Vai lá ali para casa que a mãe não quer livros". [pausa] Disse assim: "Vai lá ali para casa que a mãe não quer livros". E elas traziam um cacho de uvas que outra senhora lhe tinha dado lá em cima, lá mais adiante. Ah! "Vai lá para casa que a mãe não quer livros. A mãe já lhe disse a elas que não quer livros. A mãe até disse que não tinha mais filho nenhum. Mas visto que tu chegastes… Mas eu não quero livros". "Ah, minha senhora está a enganar gente". E "porque aqui"… E agarrada a ele, e a beijarem, a beijarem – e depois era com dois rapazes que aí vieram também atrás delas –, e a beijá-lo, e a beijarem, e a beijarem, e eu a ver… E a empurrá-lo assim para o quin-. A empurrarem-no para o quintal as duas, a empurrarem para dentro do quintal – que o meu quintal é fechado à chave. É assim um quintal como este, mas é parede. É todo alto. [pausa] Está fechado. Pronto. Ninguém vê a casa à gente. Só quem tem o portão aberto. E empurravam, e empurravam. Digo assim: "Ó menino"… No fim, peguei assim nele, disse: "Ó menino, larga-as lá, olha lá a sida". É verdade eu dizer. "Larga-as lá, olha lá a sida. Não venham elas para aqui com ideias de te de te enganar". Ó rapariga, eu não sei o que elas passaram pela cara do rapazinho – não sei o que foi que passaram – que ele que deu logo um conto e quinhentos.
INQ2 Como é que …?
INQ1 Ah! Que coisa tão esquisita!
INF Deu logo. Elas disseram assim: "Vá, assina lá aqui. Assina lá aqui, Cristiano. Assenta lá". Botou-lhe logo o nome dele, ele ele tinha já dito, não era? "Assina lá aqui, Cristiano. Assina lá". O meu Cristiano assinou logo. [pausa] "Vá, dá cá o conto e quinhentos".
INQ1 Ah!
INF O meu Cristiano deu-lhe o conto e quinhentos. [pausa] E eu vou, disse assim: "Ouçam lá, mas porque é que vocês"… Apanharem-me elas com a morte na cabeça! Mas depois ainda cá veio um homem, lá daquela emp-, por causa de a gente não o perdoar.
INQ1 Pois.
INF Então… Escutem. Depois o meu Cristiano deu-lhe um conto e quinhentos e elas. E eu disse assim: "Mas vocês estão a pedir o conto e quinhentos ao moço, vocês já hin-, hin-, hin- himpotinizaram" – eu nem sei dizer a razão disso, eu não sei dizer a razão – "que vocês me estão que me himpotinizaram o rapaz… E olha lá, ó Cristiano, tu já vieste da tropa. Um homem como tu és e como tu queres ser, e deixares-te iludir com estas raparigas?! Hã? Então tu não iludes aí com outras que a mãe tem-te voltado, e agora iludiste-te destas du-, du- duas raparigas que me vieram para aqui moer o juízo"? "Ah, minha senhora, aparece cá uma prenda para o seu filho. Aparece cá uma uma"… – não sei quê – "para o seu filho, com esse conto e quinhentos". Eu digo assim: "Vejam lá o que é que vocês estão a dizer. Ponham lá aqui isso, a direcção do coiso, [pausa] donde vocês trabalham".
INQ2 Pois.
INF Elas deram logo uma folha. Tiraram uma folha do livro e deram à gente. [pausa] "E isto E isto vem pelo correio, e tu vais levantar ali ao correio e"… Bem que elas o disseram. Dispuseram ali mais de quantas coisas, digo assim depois eu: "Ele estava iludido, ele raparigas!" [pausa] Gaiatões novos! Ele tinha vindo da tropa há pouco tempo. Gaiatões novos! E eu fiquei com coiso com a coisa de as raparigas – uma arrelia às raparigas, vocês nem queiram saber! [pausa] Ao fim de poucachinho tempo, veio um postalinho que estava uma uma encomenda para o Cristiano no no correio. [pausa] Ele mandou o carteiro levar o postal. E eu disse assim: "Olhe lá, eu não posso ir ao correio agora. Eu não sou não estou capaz de andar ali ao correio". Porque eu não andava mesmo já quase nada. E ele disse-me assim: "Não, Dalila. Você não pode lá ir. Quem lá tem de levantar isso é o Cristiano. É o seu filho. Isso é um Isto é qualquer coisa que vem de alguma coisa que ele comprou – de livros, ou qualquer coisa". Digo eu assim: "Então é uma coisa grande"? [pausa] "Ah, e tem a pagar mais um conto e quinhentos".
INQ1 Ah, mais ainda?
INF [vocalização] Mais um conto e quinhentos. Olhe, eu digo eu assim: "Ah, ainda mais dinheiro?! Então elas disseram que não pagava nada! Disseram". Fui buscar o papel, dei ao carteiro. O carteiro esteve a ler, disse: "Exactamente. Vocês não pagam isto. Ele tem lá uma coisinha assim pequenichinha, do tamanho duma caixa de fósforos das pequenas".
INQ1 Ah!
INF Disse o carteiro. Ele não viu, estava embrulhado. Disse-me logo: "Não podemos ver. Mas tem-o lá, um bocadinho pequenininho, do tamanho duma caixa de fósforos das pequenas. E o Cristiano tem aqui esta este papel, o Cristiano vai já mandar voltar aquilo para trás já, já, já, já". O gaiato veio, [pausa] e eu fui, disse-lhe: "Ó menino, passa isto assim, assim"… Estive-lhe a contar, ele disse: "Cale-se! Cale-se que eu vou já ao correio". Foi ao correio. Chegou lá, os homens no correio disseram: "Olha, volta isso para trás. [pausa] E tu deste com umas velhacas que te enganaram, chuparam-te, ó Cristiano. O que é que elas te fizeram"? "Eu sei lá! Então se a minha mãe lá não está, as putas dum cabrão até me capavam, calhando – que era o que elas me faziam"! Disse o gaiato. Bom, aquilo voltou para trás. Aquilo voltou para trás, ao fim duns poucos de dias – estava eu até na matança dum porco dali –, chega ali um carro branco. Com um homem, um senhor muito bem edu- muito bem coiso. Chegou um carro branco. Aí pela aldeia acima procurando onde é que morava o Cristiano Cruz Damásio. [pausa] E elas, as pessoas, disseram-lhe onde é que era. "Olha, numa rua assim, assim, assim, assim . Até estão lá de matança. Ele por acaso, não sei se ele aí está, se não, agora os pais estão de matança hoje. [pausa] Mas ele deve de aí estar, com certeza. Para os pais estarem de matança, o rapaz está aí. Ele já não é tropa. O rapaz está aí". Só sei dizer Mas não estava. Ele estava ali no centro social. [pausa] Tinha abalado. Tinha comido, tinha abalado e a gente tínhamos aí ficado a ajeitar as coisas. Estava ali ainda aos dois homens e as mulheres, mas a rapaziada nova já tinham abalado. Chegou ali um o homem e procurou: "Onde é que mora aqui o Cristiano Cruz Damásio? Quem é que é os pais do Cristiano Cruz Damásio"? Mas o homem conheceu logo o meu Cristino pela pinta. Tirou logo o meu Cristino. [pausa] Disse logo: "Este Este senhor [pausa] de certeza que é o pai do Cristiano". E eu disse: "Então é porque o senhor foi a algum lado que viu o Cristiano, [pausa] para saber que este que é o pai do Cristiano". O homem já tinha ta- já tinha estado no centro.
INQ1 Ah!
INF O senhor esteve no centro e viu lá o meu Cristiano. Mas não sabia se era o meu Cristiano – não tinha visto não é, nunca procurou nada, o homem veio-se embora. Ele disse: "Por acaso, estive no centro social, onde vocês lhe chamam o centro social, porque me ensinaram para lá ir. Tivemo- Estive lá. [vocalização] É o senhor é que é o pai do Cristiano"? "Pois sou". "Então, olhe, eu preciso de falar com o Cristiano". E eu disse assim para o homem: "Pois olhe, a mim vossemecê não me engana. Tem de me dizer aqui a mim – só lhe digo onde é que está o meu filho – [pausa] o que é que o senhor quiser ao, do, ao ao meu filho. [pausa] O senhor diga o que é que quer ao meu filho". "Eu venho cá por umas coisas que ele para aí comprou a umas meninas que trabalham lá naquele" – lá disse onde era. "E nós Venho cá para falar com ele para ele me mostrar o papel que aí tem. [pausa] Porque o, o o projecto dele voltou para trás". [pausa] E eu disse assim: "Ah, então é isso. Deixe Esteja aqui, que vai lá uma pessoa chamá-lo". "Então"… E o, e ele E o meu C- meu Cristino disse: "Onde é que está o nosso Cristiano"? Eu disse: "Está no centro social". [pausa] "Então olhe, eu vi lá esse moço e é parecido consigo. Você é que é o pai dele. Está lá esse rapaz a jogar ao mi- ao dominó. Eu é que não sabia se era esse moço. [pausa] Mas está lá. De certeza que é esse moço, que eu estou olhar quase para a para a sua cara". Nisto, o meu Cristiano chegou. [pausa] O meu Cristiano chegou, o meu Cristiano disse ao homem – disse-lhe adeus e disse: "Então porque é que o senhor não disse lá no centro social quem é que era o Cristiano? Toda a gente lhe dizia quem era, que sou só eu. Que eu é que sou Cristiano – só aí há ou- eu e outro rapaz". " [vocalização] Olhe, venho aqui para o senhor me mostrar… E trago aqui o, o o coisinho que elas lhe [vocalização] despacharam". Era uma coi- era – aquilo nem era nada, com certeza. [pausa] O homem nunca disse o que era. [pausa] Mandei o Cristiano buscar o papel [pausa] e deu-lho para o homem ver. E o homem disse: "O senhor [pausa] quer fazer uma acção que a gente fica orgulhosos lá no trabalho? Apareça lá [pausa] com este papel. Ele a [vocalização] A gente não lho tira. Apareça lá com esse papel [pausa] para a gente saber quem é que é que anda a trabalhar para a gente. Apareça lá com esse papel". O meu Cristiano não foi. Teve vergonha, não foi. "Apareça lá com esse papel. Peço-lhe mesmo por favor que o senhor apareça lá com esse papel, [pausa] para a gente saber quem é que anda a trabalhar para a gente". [pausa] E disse Depois ele disse ali tanta coisa delas, tanta coisa delas, tanta! Eu disse o trajo que elas traziam; ele disse logo que sabia quem era [pausa] pelo traje que elas traziam e porque é que ele se deixou agarrar por elas. Que ele nunca se devia de deixar agarrar por elas, [pausa] porque ele já tinha ido a outro sítio, que já lhe tinham se queixado também do mesmo, que não foi só o meu. Não sei onde é que foi que ele nunca disse. Depois, ao fim de três ou quatro dias, ou menos, apareceu aí dois rapazes – [pausa] rapazões novos! Muito engraçadinhos, pareciam bons rapazes, também a vender isso, livros! Depois disseram assim: "A gente quer vir aqui à a esta terra, que esta terra é muito bonita"! E tal, e tal. [vocalização] Estava eu aqui mais esta rapariga. Digo assim: "Olhe, eu não lhe quero comprar nada. Não lhe compro nada. E vocês são rapazes"… [pausa] " [vocalização] Tal e tal e tal". Depois estivemos aqui a contar isso do meu Cristiano e um rapaz disse: "Nós Isso espalhou-se. Nós também sabemos esse caso. Isso não são mulheres. Não são Não são mulheres que andem aí. Elas são Elas têm feito muitas muitas. Elas Elas nem lá trabalham"! Elas daque- Pelo jeito do homem – depois aqueles aqui é que disseram aqui à gente –, com certeza foi elas que apanharam alg- aquilo, [pausa] alguns papéis… [pausa]
INQ1 Alguns papéis.
INF E [vocalização] tanto que ele fartou-se de pedir, o homem. Agarrou-se ao meu Cristiano, fartou-se de pedir: "Ó, ó sujeito vá lá! Ó moço, vá lá! Ó moço, vá lá ao nosso coiso. Ó moço, vá lá. Então a sua mãe vai a Lisboa todos todos os meses, você vai mais a sua mãe. Aquilo é lá tão pertinho do Hospital de Santa Maria, você vá lá, moço, vá lá"! O meu Cristiano disse: "Então, se eu algum dia lá passar, vou lá"! Agora o meu Cristiano está lá. Ainda agora ontem aí esteve e eu estive-lhe a dizer. A meio com Com umas boas conversas, ele diz: "Ai mãe! Agora, se fosse agora que aquelas moças me fizessem aquilo, agora é que eu ia a Lisboa! Trabalho lá"… Anda na na Câmara, nas ruas. "Trabalho lá. Agora é que de certeza que já lá passei até onde elas estavam. Já corri… Já estive na garagem, na Setubalense". Gente que corre tudo, não é?
INQ1 Rhum-rhum.
INF "Agora é que eu é que elas me haveram de dizer, que agora eu procurava-as ali como quem não quer". [pausa] Não vê que elas fizeram isso? Olhe, vem, vem uma rapa- anda aí umas raparigas – [pausa] não sei daonde – a venderem louças, a venderem assim a escolher – a gente a escolher assim pelo catálogo…
INQ1 Pois.
INF Umas gajas. Umas mulheres Corte na gravação, não é?
INQ1 Rhum-rhum.
INF Vê-se que as pessoas são sérias. E aquelas velhacas isto Não se metem com os rapazes, não não fazem aí coisas nenhumas, e aquelas r- duas raparigas não eram boas, ó mulheres!
INQ1 Isto há de tudo.
INF Não eram boas! Não eram! [pausa] Não eram boas! E elas, se eu se eu sei o que sei hoje, elas tinham levado ali duas bofetadas no focinho, [pausa] dele! Eu é que não tive tempo! Não tive tempo e eu e eu não sei o que é que elas lhe fizeram. Não sei o que é que elas lhe fizeram. Não sei o que é que elas ali fizeram. Não sei, não sei.