INQ1 E o que é que se fazia das galinhas? Era caldo, era…?
INF1 Era Olhe [vocalização], acabante se acabante se pa- paria, já estava a galinha a cozer. Já a mulher estava para para parir, já já estava a galinha a cozer no pote.
INF2 Mas boa, das melhores.
INF1 E depois Das melhores. Daquelas que tivessem mais gordura, mais gordura. "Olha, esta galinha o que está pesada! Vai-me à [vocalização] ao galinheiro e apanha-me a galinha… Escolhe-me a galinha que mais pesar".
INF2 "Escolhe-me a melhor".
INF1 E [vocalização] a que estivesse melhor era a que vinha; e já estava ali a cozer. E depois beber aquelas malgas de [vocalização] de água; e deitar-lhe ali pão e fazer as sopas de da galinha; [pausa] e comer a carne.
INF2 Mas ainda houve [pausa] Ainda houve algumas solteiras de, claro, de cair naquela rede que ainda se hoje cai – hoje [vocalização] evitam mais, mas de qualquer maneira ainda há quem caia – e de chegarem à beira dela, já [pausa] nós casados, a chorar com a fome.
INF1 Ai, com a fome, sim, sim.
INF2 Também não se contam só os…
INF1 Ai, isso Ai, isso creio que houve. [pausa] Por desgraça houve uma.
INF2 "Ó Albertina, a ver se me arranjas algo, que eu caio redonda".
INF1 É verdade. Fizeram Provocaram um, um um desmancho e e, por desgraça, eram duas – por desgraça, eu não sei se são desgraças, se são sortes –, duas crianças.
INF2 Disse ela. Disse ela.
INF1 E ela não tinha nada – disse-mo ela. E ela não tinha nadinha! Coitadinha! Não tinha nada. E ela chegou onde a mim, ela disse-me assim… Nós matáramos um [vocalização] porco [pausa] e tínhamos duas chaves da loja, como já se falou.
INF2 Eu tinha a loja e já não se conseguiam outras coisas. Na vez dum, matava três ou quatro. Queria fartura.
INF1 Claro. Comprava os porcos e nós depois vendíamos assim aos pedaços de carne.
INF2 Ou Ou se cedia na loja um bocado ou eu tinha sempre fartura para a mulher e para os filhos.
INF1 Era só: "Tu arranja-me uns bocadinhos de febra, ca que me apetece muito comer e eu não tenho nadinha que comer".
INF2 "E tens que me arranjar", a chorar.
INF1 Já arranjei-lhe umas febrinhas.
INF2 Disse-me ela, à noite, quando eu ia… Digo-lhe: "Ó mulher"…
INF1 Disse-lhe: "Ó filha, mas tu o que havias de fazer, que te desgraçaste; ca que tu arruínas-te assim, mulher". "Olhe, eu com que os criava"?
INF2 Mas me- Mas aquilo tinham tinha pouco… Tinham tinha um tempinho.
INF1 Ela não tinha nadinha. Não tinha nada com que os criar. Também, fez bem. Olhe!
INF2 E a outra vizinha dali era igual.
INF1 Era igual, mas aquela não [vocalização] se queixou [pausa] como a outra. A outra, coitada, veio desenganada. Veio ao direito. Queixou-se-me que não tinha… Que Que provocara aquela… O desmancho! Naquele tempo, era muito milagre ainda aquilo. E [vocalização] eu arranjei-lhe, então, umas febras, e disse-lhe: "Pronto, filhinha, vai. E olha, enquanto eu tiver, vem, que eu te arranjo. E come do que puderes".
INF2 "Vai". Mas nem tinha nem…
INF1 Não tinha, não.
INQ1 Como é que elas provocavam o desmancho?
INF1 Eu não sei lá como fez.
INF2 Eu não sei. Elas lá …
INQ1 Mas iam a umas pessoas curiosas ou…?
INF1 Pois, decerto foram pessoas cur– curiosas.
INF2 Mas aquilo era de poucos meses.
INF1 Ela disse que eram duas. [pausa] Já conhecia-se que eram duas crianças. Mas eu, o tempo que tinha… [pausa] Pouco, para aí! Não seria de meio tempo.
INF2 Não.
INQ1 Pois, pois. Claro.
INF1 Não seria. Não seria. Mas ela, ela estava assim… Aquela estava assim como o Alarico. E era uma mulher como o… Jesus! Mas [pausa] não tinha pai, nem tinha mãe; não tinha irmãos; não tinha ninguém. Estava ela só.
INF2 E chegou depois a casar bem. Chegou a casar com um guarda-fiscal.
INF1 É. Chegou-lhe a correr bem depois. Casou com um guarda-fiscal. [pausa] Correu.
INQ2 Olha, que bem!
INF1 Depo- Depois de fazer aquele desmancho, ainda teve sorte.