INQ1 E, e nunca ouviu falar em bastão?
INF O bastão é…
INQ1 É o quê?
INF É [vocalização] É a lande à mesma. É uma que vem um bocadinho mais cedo. Pois, escute, eu agora vou-lhe dizer: em Setembro, começa a aparecer boleta; mas há uns sobreiros que deitam umas [vocalização] uns bastões [pausa] que é uma lande que vem mais cedo, mais temporã.
INQ1 Ah!
INF Mas começa… É que vai cair tudo na mesma altura, quer dizer, começa a cair em Setembro, e depois – [vocalização] ou em fins de Agosto, vamos lá –, e depois a outra é em Setembro, fins de Setembro, princípio de Outubro, começa a dar comer aos porcos [vocalização]. Começa a dar o comer ao gado, pronto! Já Isso já é outra… É, é A boleta é tudo da mesma árvore, tudo da mesma colheita, o que é que uma vem mais cedo. Vem mais cedo que é o que o que vem a outra. Vem, por exemplos, se é o bastão, se é [vocalização]… Nem todas as árvores dão aquilo!
INQ1 Pois.
INF Até que todas as árvores podem dar, mas, quer dizer, não é no mesmo ano.
INQ1 Mas são… Claro.
INF É o… Este ano, por exemplo Este ano deu bastão; para o ano, por exemplo, já não dá; para o outro ano, já dá outra vez, e é… E por aí fora.
INQ1 Pois.
INF Não é no mesmo ano , que elas não dão bastão todos os anos.
INQ1 E portanto, janeirinha nunca ouviu falar? Não?…
INF [vocalização] Nem janeiro, não conheço.
INQ1 Nada?
INF Não conheço, não senhor. Eu não conheço, [pausa] a não ser que haja áreas…
INQ1 Pode ser noutras zonas?…
INF O nosso país O nosso país é muito grande [vocalização] e pode haver…
INQ1 Janeirinha.
INQ2 Janeirinha.
INF Pode haver aí áreas que tenha outro no-, outro, outro [vocalização] outra fruta que eu não conheço.
INQ1 Pois.
INF Bastão e lande é tudo a mesma coisa. Contanto, é só por o bastão vir mais cedo. Tanto que a gente anda…
INQ1 E é mais grossa?
INF Mais grossa.
INQ1 Mais grossa que a lande.
INF Pois. É mais grossa alguma [vocalização].
INQ1 Alguma? Também não é toda?…
INF Eu também lhe vou dizer. Olhe, eu andava aí a guardar o gado, depois, [pausa] logo ali [pausa] fins de Agosto – começa assim a vir as águas novas; chama-lhe a gente as águas novas –, as ovelhas, por exemplo, as ovelhas largam-se, fogem, correm [vocalização] àqueles sobreiros que têm aquele pingador que chama-lhe a gente o bastão. Hem? Porque vem mais cedo maduro. As outras devem estar em casulos, pequenininhas! Vai caindo mas aquilo para elas não lhe serve, e vão, correm àqueles que conhecem. Elas sabem onde eles estão todos. Correm aquilo tudo, correm além, sabem onde aquilo está. E é o tal o tal bastão.
INQ1 Bastão.
INF É, sim senhor.
INQ1 Pois.
INF É isso.
INQ1 E eu ia-lhe perguntar outra coisa… Ah! E portanto, o senhor disse… Há uma época em que se tem que limpar os sobreiros…
INF Há sim senhor.
INQ1 Olhe, desculpe, antes disso, queria saber: qual é a diferença entre um sobreiro e um chaparro?
INF [vocalização] O sobreiro e o chaparro é a mesma coisa.
INQ1 É a mesma coisa?
INF É. [vocalização] A árvore é a mesma.
INQ1 Uma vez chamam uma coisa, outra vez chamam outra…
INF Pois. É o sobreiro, é os sobreirais.
INQ1 Olhe, e o pequenino?
INF Ou os chaparrais – já não há quem diga… Isto é Isto é a linguagem de nós.
INQ1 Sim.
INF " [vocalização] Ah, é o chaparral". Toda a gente sabe que é um sobreiral. Uns chamam-lhe um sobreiral, é um sobreiral, ou é chaparral, pronto, tem sobreiros. É É aquela árvore; não há mais outra qualidade…
INQ1 Mas quando um sobreiro ainda é pequeno, como é que lhe chamam?…
INF Machoco. É os machocos. Os machocos.
INQ1 Machoco. E quando é velho, já um sobreiro grande…
INF Bom, isso aí, há aí uma coisa. É pena que a senhora não não não ser num dia que se pudesse lá ir, que eu ia-lhe mostrar umas árvores que… Únicas cá dentro do nosso país! Únicas! Há, pelo menos, cá na nossa área, há aqui umas quatro. Três ou quatro. São umas árvores reais.
INQ1 Árvores reais?
INF Árvores reais.
INQ1 E como é que é?
INF Que nem tirado É sobreiros. Que nem tirados foram nunca na vida, nunca. Foram as primeiras árvores que apareceram na nossa área… Isto é como tudo o mais. Há áreas que vão-se [vocalização] vão renovando de árvores conforme os anos, não é? E aqui não se constava e então apareceram aquelas árvores: chamam-se árvores reais. Há quatro árvores reais cá no nosso país aqui, na nossa, aqui na região. Quatro!
INQ1 E aqui ao pé do Lavre?
INF É aqui ao pé de Lavre.
INQ2 Pergunta em que sítio.
INF Ao Cimarrinho.
INQ1 Ah!
INF Ali ao Cimarrinho, [pausa] há ali… Que é na Terra do Frade, que era terra das ovelhas. [vocalização] Aí é que há quatro árvores reais. É as únicas árvores que eu conheço [pausa] que são iguais todas as outras coisas, o que é que nunca foram esgalhadas, nunca foram cortadas ramos nenhuns, nunca foram nada! Nem a cortiça foi tirada! Há lá bocados tirados mas é [vocalização] a gente próprios; alguns chegou: "Tira aqui um bocado de cortiça" – que há lá cortiça que é…
INQ1 Mas são então…
INQ2 Tem quantos anos?
INF Grossura?
INQ1 Já são?… Tem um troço muito largo, não?
INF [vocalização] Oh, uma coisa sem explicação!
INQ2 Devem ter muitos anos ainda!
INF [vocalização] São árvores reais, é no tempo dos reis [vocalização]! Isso eu, sabe, muita gente Eu isso nem nem posso calcular, porque eu, eu vou-lhe dizer uma coisa: [pausa] eu era gaiato pequeno e ia mais a minha mãe ao carvão, aos Arneiros, [pausa] e ali à estrema dos Arneiros com a Gracia, arredado da estrada, estava lá um machocozito – um sobreiro. Esse sobreiro eu ia lá para cima; tanto pulei lá para cima – era gaiato pequeno –, tanto pulei até que esgarnei uma pernada. E eu fiquei… Ainda levei porrada. A minha mãe bateu-me, pois não faltava nada para me bater. Fazia ela me mui bem, que eu era mau. [vocalização] Era assim, era. Eu era assim assim um bocadito traquino demais. E a senhora sabe que eu que era um bocado traquino! [vocalização] Eu era muito traquino, era! E então, [vocalização] hoje eu conheço a árvore, e hoje está um sobreiro que é uma coisa sem explicação! Quem é que me havia de dizer a mim que eu que andava em cima daquilo, que era aí uma grossura aí da perna dum homem, hem, e e agora está uma sobreiro, que é uma sobreiro, uma coisa… Uma coisa grande! Grande! Grossa! E eu conheço a árvore. Sei. Passo lá todos os dias, se não for quase ao pé dela… Muitos dias diante dela.
INQ1 Mas, portanto, chama uma sobreira?
INF Não. Ainda é um sobreiro.
INQ1 Ainda é um sobreiro.
INF As sobreiras são aquelas sobreiras – chama-lhe a gente… Já está o nome de sobreiro para sobreira, que é aquelas árvores mais velhas, muito grossas, muito grossas, muito grossas e já com cortiça, já… Se calhar, já lhe tiram pouca cortiça porque ele começa a a árvore a estar velha… Aqui à Aqui à Amoreira, no caminho de Vendas Novas, [pausa] há ali uma, mesmo logo à ponta do olival. Se passarem por aquela estrada, quando vão para lá, vão ver.
INQ1 Quando formos para Vendas Novas passamos…
INF Vão? Vão.
INQ1 Havemos de ir.
INF Ah, bom! Mas Mas passam por esta estrada abaixo? [pausa]
INQ1 Sim.
INF Direito a [vocalização] Olhe, do lado esquerdo, entre o campo da bola e o olival, está lá uma sobreira. É a sobreira mais velha que eu conheço aqui nesta… Tirando ser aquelas além. Em questão de maior!
INQ1 Claro, claro.
INF Porque quando quando aquela era sobreira – que ainda hoje ela lá está –, já havia lá sobreiros por todo o lado! Mas eram pequenos e são pequenos. Pequenos, que era a árvore normal! E aquela é que é uma coisa desmarcada. É a sobreira da Amoreira. Chama-lhe a gente a sobreira da Amoreira.